sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

Te-Atrito estreia o espectáculo O RETÁBULO DAS MARAVILHAS, com apresentações em Lagos e em Faro, no Teatro Lethes

Nos próximos dias 13, 14, 20 e 21 de Dezembro, o te-Atrito apresenta a sua 5º produção, intitulada “O Retábulo das Maravilhas”. Os espectáculos terão lugar no Centro Cultural de Lagos no dia 13, no Centro Cultural de Barão de s. João no dia 14, e no Teatro Lethes, em Faro, nos dias 20 e 21, sempre pelas 21h30m.
Le Tableau des Merveilles é um entremez de Cervantes (séc. XVI), que Prévert reescreveu em 1935. Peça curta, crítica e cómica, de cariz popular, a meio caminho entre o humano e a marioneta, reconta a velha ideia de “o rei vai nu”. A história passa-se numa cidade imaginária, onde chegam uns saltimbancos e a criança-música que haviam raptado, prometendo mostrar maravilhas no seu retábulo – maravilhas essas só visíveis para quem tiver a consciência tranquila…
Com este espectáculo, o te-Atrito prossegue o seu ciclo de homenagem a Jacques Prévert (1900-1977). Escritor de sucesso em vida, Prévert escreveu poemas, argumentos para cinema, histórias para crianças, letras para canções, fez colagens e fundou o grupo de teatro Octobre, para o qual escrevia peças de teatro. Considerado, juntamente com Ionesco e Beckett, um dos principais cultores do “teatro do Absurdo” – também aqui como “desalinhado” – os seus textos teatrais não visam apenas o entretenimento mas, através da ironia e do humor, ridicularizam aquelas injustiças e procedimentos institucionais que todos reconhecem mas que poucos se atrevem a denunciar – e são de uma actualidade iminente.
A primazia que o te-Atrito dá ao papel do actor no espectáculo e no próprio processo criativo levou a que para este projecto se escolhesse uma equipa de actores com prática em trabalhos de criação colectiva, que por um lado já tivesse trabalhado em conjunto no passado e que por outro juntasse experiências teatrais diversificadas. Assim, participam neste projecto como actores André Canário, António Salvador, Filipa Rei, Igor Martins, Pedro Monteiro e Rita Neves, sendo a encenação de Pedro Monteiro, com assistência de Tânia Silva. Os figurinos foram desenhados pela estilista Alina Monteiro, e o guarda-roupa, todo em pele de cortiça, foi oferecido pela Pelcor, empresa de relevo da região algarvia.
Este projecto do te-Atrito conta com o financiamento do Ministério da Cultura, Direcção-Geral das Artes, e com o apoio da Câmara Municipal de Lagos, Direcção Regional da Educação do Algarve, Instituto D. Francisco Gomes (Casa dos Rapazes), IPJ- Faro, Pelcor, Barlavento, Teatro Municipal de Faro, Universidade do Algarve.
E você, será que é capaz de ver o incrível espectáculo que acontece no maravilhoso retábulo??

segunda-feira, 19 de Novembro de 2007

O RETÁBULO DAS MARAVILHAS


Le Tableau des Merveilles é um entremez de Cervantes (séc. XVI), que Prévert reescreveu em 1935. Peça curta, crítica e cómica, de cariz popular, a meio caminho entre o humano e a marioneta, reconta a velha ideia de “o rei vai nu”. A história passa-se numa cidade imaginária, onde chegam uns saltimbancos e a criança-música que haviam raptado, prometendo mostrar maravilhas no seu retábulo – maravilhas essas só visíveis para quem tiver a consciência tranquila… Senhores importantes, mendigos, polícias, donzelas e don juans, todos jurando conseguir ver as tais maravilhas, são simultaneamente público e actores, até o teatro não se distinguir bem da “verdadeira realidade” e das suas convulsões.

Resumo do argumento

Os artistas chegam à cidade pelos caminhos escritos nos cata-ventos. Como é tradição, trazem uma criança raptada que toca música enquanto apresentam aos notáveis da terra o verdadeiro, o único, o singular, o deslumbrante, o admirável Retábulo das Maravilhas de que toda a gente culta já ouviu falar.
A música é atroz – faz-se a música que se pode. Roubaram a criança e com ela a sua música, e pelo preço que lhe pagam não podiam querer ouvir os grandes órgãos da felicidade celeste com os anjos todos babados mais o avó eterno em grande pândega.
A cidade é pequena mas cheia de pessoas felizes, pessoas sem história, que comem com regularidade e que se casam e, se há progresso na terra, é graças a eles, aos chefes. Também há mendigos que não pedem nada a ninguém a não ser esmola, e que no entanto dão mau aspecto. Mas a miséria é a mesma miséria em todo o lado e os artistas também não vivem só do ar dos tempos.
O espectáculo é apenas um lençol branco estendido entre duas estacas. As maravilhosas maravilhas do maravilhoso Retábulo das Maravilhas não são visíveis para todos. É preciso vê-lo para crer nele, mas também é preciso crer nele para o ver – Sansão e o Templo que se Desmorona, Um Touro em Fúria, Os Ratos da Arca de Noé, Salomé, a Bailarina, Job na sua Imunda Miséria – a assistência empolga-se, o Retábulo é mais real do que a realidade e quando é dado o alerta já a revolução dos mendigos invade a sala.
Os artistas vão-se embora sorrindo e quem dança continua a dançar (que são todos excepto os inanimados).